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EDUCAÇÃO PARA A PAZ


EDUCAÇÃO  PARA  A  PAZ

Ubiratan D'Ambrosio *

I. Uma Conceituação de Paz
A problemática de paz deve ser o centro de nossas reflexões sobre o futuro. Violações da paz não se resumem em confrontos militares, que são as guerras. Na verdade, a paz é um conceito pluridimensional. Nosso objetivo deve ser atingir um estado de paz total, sem o que o futuro da humanidade estará comprometido.

Por paz total entendo a paz nas suas várias dimensões: a) a interior - estar em paz consigo mesmo; b) paz social - estar em paz com os outros; c) paz ambiental - estar em paz com as demais espécies e com a natureza em geral; d) paz militar - a ausência de confronto armado.

Paz não é apenas a inexistência de divergências e conflitos. As diferenças e, conseqüentemente, as divergências e conflitos, são parte da diversidade que caracteriza todas as espécies, e são, portanto, intrínsecas ao fenômeno vida. Cada indivíduo é diferente do outro. A homogeneização da espécie humana é algo que contraria frontalmente as leis biológicas e tem como resultado a anulação da nossa vontade individual, em outros termos, causa a subordinação da nossa consciência e a eliminação dos traços culturais. Essa homogeneização é hoje uma ameaça efetiva em vista das possibilidades atuais de manipulação genética.

A existência de diferenças é natural e o encontro com o diferente é, em todas as espécies vivas, essencial para a continuidade da espécie. Mas é incrível como, num curto tempo de sua presença neste planeta, a espécie humana tornou esse encontro um ato sujeito à arrogância, à inveja, à prepotência, à ganância e à agressividade. A ética tem como grande objetivo transcender esse comportamento.

II. Uma Reflexão Sobre o Comportamento Humano
Uma reflexão sobre a paz pressupõe uma abordagem teórica. Teorias resultam da escolha de categorias de análise. Para abordar a problemática da paz, trabalho com categorias que permitem entender a natureza humana e o fenômeno conhecimento, que é característico da nossa espécie. Nenhuma outra espécie animal revela conhecimento com as características da humana.

Devemos entender primeiramente o que é vida e como o ser humano se comporta como uma espécie diferenciada.

Minha visão de homem repousa sobre a análise das seguintes categorias: a) cosmos; b) planeta; c) vida, como a resolução das relações entre cada indivíduo, outro(s) e a natureza; d) sobrevivência do indivíduo e da espécie; e) homem, como uma espécie diferenciada; f) transcendência; f) intermediações, criadas pelo homem, entre indivíduo, outro(s) e natureza; g) comunicação; h) comportamento; i) conhecimento; j) consciência e ética.

O problema fundamental é entender a relação entre o indivíduo e o seu comportamento, isto é, entre o ser humano (substantivo) e ser humano (verbo).

Ao longo da sua curta história, o homem tem procurado explicações sobre quem é — e tem se acreditado o favorito de algum deus — sobre o que é — e tem se acreditado um sistema complexo de músculos, ossos, nervos e humores — sobre como é — e tem se acreditado uma anatomia com vontade, e sobretudo quanto pode — e tem se acreditado sem limitações à sua vontade e ambição.

Procurando entender quem é, o que é, como é, o homem constrói sistemas de explicações que se organizam como história, religião, ciência, arte. E na explicação do quanto pode, concebe o poder. Essas explicações determinam a construção de modos de comportamento e de conhecimento.

Temos avançado muito no conhecimento do ser humano. Mas a grande angústia existencial, que resulta de não se encontrar uma resposta satisfatória à questão maior "por quê sou?", dá origem a contradições na qualidade de ser humano.

As violações da dignidade humana na civilização moderna, que chegam até a exclusão e mesmo eliminação de indivíduos, levam alguns a duvidarem da viabilidade de uma sociedade eqüitativa. A agressividade desmensurada contra a natureza põe em risco a continuidade da espécie.

As distorções da maneira como o homem tem se acreditado induziram poder, prepotência, ganância, inveja, avareza, arrogância, indiferença. Neste trabalho vou refletir sobre esse comportamento pelo exame do cocnhecimento. O conhecimento tem sido utilizado para justificar nossas ações, muitas vezes desencorajando críticas e dando um caráter de verdade absoluta a crenças. Isso é particularmente notado no pensamento ocidental, fragmentado em disciplinas.

O grande pensador Sri Aurobindo (1872-1950) escreveu, numa das mais interessantes apreciações da cultura ocidental: "Para a filosofia ocidental uma crença intelectual fixa é a parte mais importante de um culto, é a essência de seu significado e o que o distingue dos outros. Assim são que as crenças formuladas fazem verdadeira ou falsa uma religião [uma teoria, uma filosofia, uma ciência], deacordo com sua concordância ou não com o credo de seus críticos."

O comportamento e o conhecimento se constroem sobre crenças intelectuais basilares, por muitos chamadas paradigmas. Comportar-se e conhecer são identificados com o fazer e o saber. Na filosofia ocidental, que culmina com a  chamada filosofia moderna, fazer e saber comparecem como ações distintas. O fazer está associado ao material, ao corpo, ao manual, ao colarinho azul. O saberestá associado ao espiritual, à mente, ao intelectual, ao colarinho branco.

As conseqüências dessa dicotomia e a valorização do saber sobre o fazer são evidentes na organização da sociedade moderna, na economia e na própria burocracia.Todo um processo de exclusão e de hierarquização está ancorado nessa dicotomia. Quem sabe manda e o fazer é interpretado como um ato de obediência.

A Vida Como Uma Tríade
O fenômeno da vida é inconclusivo e complexo, está em permanente transformação e sujeito a uma dinâmica da qual sabemos muito pouco. Identifico três elementos fundamentais para que a vida se realize, que represento no que chamo de triângulo da vida (subentende-se "indivíduo" e "outro" como da mesma espécie, e "natureza" como a totalidade planetária e cósmica):

                                            

Os três componentes, o indivíduo o outro e a natureza, são mutuamente essenciais. Vida significa a resolução desse triângulo indissolúvel. Nenhum dos três componentes tem qualquer significado sem os demais.

O indivíduo é um organismo vivo, complexo na sua definição e no funcionamento de seu corpo, que age em coordenação com o cérebro, órgão responsável pela organização e execução de suas ações. Um corpo e um cérebro mutuamente essenciais, uma só entidade.

Os diferentes órgãos de um indivíduo interagem para manter o organismo vivo. Mas essa interação não pode se limitar ao organismo. Na verdade, a interação não pode ser no organismo, mas na tríade indivíduo/outro/natureza. Essa interdependência mútua é que deve servir de fundamento para entender a vida e o comportamento dos seres vivos.

Em todas as espécies, na busca de sobrevivência, o indivíduo se sujeita a comportamentos vitais básicos [meios]: a) reconhece o outro; b) aprende; c) é ensinado; d) adapta-se; e) e cruza, com os objetivos [fins] de sobreviver e de dar continuidade à espécie.

Uma questão maior, ainda não respondida é: "Quais as forças que levam os seres vivos a esses comportamentos vitais?"1

O homem, como todo organismo vivo, é complexo na sua definição e no seu funcionamento, e está sujeito aos mesmos comportamentos vitais básicos de todo ser vivo. Busca sobrevivência. A sobrevivência depende da resolução do triângulo da vida, que se dá no momento e no local. É uma ação no presente espacial e temporal. Espaço e tempo significam o aqui e o agora.

Mas diferentemente dos demais seres vivos e mesmo das espécies mais próximas, o homem busca algo além da sobrevivência. Algumas vezes até rejeita sua sobrevivência.2

Esse algo mais é a superação do presente, estendendo sua percepção de espaço e de tempo para além do presente e dop visível. O homem incursiona no passado e no futuro. Indaga sobre o que e como foi, e sobre o que e como será. Procura explicações sobre o passado e predições sobre o futuro, transcendendo espaço e tempo, criando representações sobre o que não vê.

A busca desse algo mais leva a indagar sobre o fenômeno vida, para o que é necessário conhecer o cosmos e o nosso habitat — o planeta Terra. O cosmos tem sido uma das grandes indagações do ser humano. Explicar o cosmos tem sido uma das primeiras motivações para construir sistemas de conhecimento. Inserido no cosmos está o nosso planeta, a Terra. Têm havido muito progresso nas explicações sobre o cosmos e o planeta Terra, e conseqüentemente sobre o fenômeno vida, sempre revelando incertezas e contradições.

As Intermediações Criadas pela Espécie Humana
Onde se situa a diferença de comportamento entre a espécie humana e as demais espécies?

O comportamento humano resulta de duas grandes pulsões: 1. A sobrevivência, do indivíduo e da espécie que, como em toda espécie viva, se situa na dimensão do momento; 2. A transcendência do espaço e do tempo que, diferentemente das demais espécies, se situa numa outra dimensão, levando o homem a indagar "por quê?", "como?", "onde?", "quando?".

Sobrevivência e transcendência guardam uma relação simbiótica e distinguem o ser humano das demaisespécies. Na resposta às pulsões de sobrevivência e de transcendência surgem intemediações nas relações essenciais do indivíduo com a natureza e com o (s) outro (s) e o homem incursiona no passado, buscando explicações, e no futuro, buscando predições. Nesse incursionar gera conhecimento, que é reconhecido nas habilidades, nas técnicas, nos mitos e nas artes, nas religiões e nas ciências.

A diferença essencial entre a espécie humana e as demais espécies é o fato de termos criado, ao longo da nossa evolução, instrumentos, comunicação, principalmente a linguagem, e um sistema de produção, que servem de intermediações para a resolução do triângulo da vida:

                       

Criar e utilizar essas intermediações são possíveis graças ao encontro de comportamento e conhecimento. A percepção dos acertos e equívocos desse encontro é o que chamo consciência.3 No encontro com o outro, que também está em busca de sobrevivência e de transcendência, desenvolve-se a comunicação.

Valores
O comportamento de cada indivíduo é aceito pelos seus próximos quando subordinados a parâmetros, que denominamos valores, e que determinam os acertos e equívocos na produção e utilização das intermediações criadas pelo homem para sua sobrevivência e transcendência.

Valores, assim conceituados, relacionam os meios com os fins. Os fins constituem as grandes utopias de indivíduos e de sociedades, dos sistemas de explicações e dos mitos, da cultura. Os meios dependem dos instrumentos materiais e intelectuais de que dispomos, também dependentes da cultura. Assim, os valores são manifestações culturais.

Uma excursão pela história revela que novos meios de sobrevivência e de transcendência fazem com que valores mudem. Mas, alguns valores permanecem: a) respeito pelo outro (o diferente); b) solidariedade com o outro; c) cooperação com o outro. Esses valores constituem uma ética maior, sem a qual a qualidade de ser humano se dilui.

Mas por que a humanidade caminha em direção contrária a essa ética, sema a qual a espécie humana não pode sobreviver?

Essa questão maior tem sido a motivação dos grandes modelos filosóficos, religiosos e científicos. Os modelos filosóficos, religiosos, científicos propõem "verdades" que têm sido aceitas como absolutas e que constituem sistemas de valores que guiam o comportamento humano. Os valores mudam, subordinados ao que prevalece nos sistemas sociais e econômicos.

Em muitas sociedades, a prioridade passa a ser a defesa do sistema de valores. A questão fundamental, que é a busca de sobrevivência associada à transcendência, pasa aser subordinada à defesa do sistema de valores (fundamentalismos). É oportuno lembrar a citação de Aurobindo no início deste trabalho. Os sistemas de valores, da mesma maneira que as ciências e as religiões, são vistos na cultura ocidental como saberes concluídos, que têm uma arrogância intrínseca à própria concepção do concluído.

O conhecimento disciplinar, e consequentemente a educação, tem priorizado a defesa de saberes concluídos, inibindo a criação de novos saberes e determinando um comportamento social a eles subordinado.4 Ele evoluiu para a multidisciplinaridade, praticada nas escolas tradicionais, e para a interdisciplinaridade, ainda difícil de ser conseguida. Mas o verdadeiro avanço, abrindo novas possibilidades para o conhecimento, é a transdisciplinaridade.5

A transdisciplinaridade, assumindo a inconclusão do ser humano, rejeita a arrogância do saber concluído e das certezas convencionadas e propõe a humildade da busca permanente. O comportamento humano responde às pulsões de sobrevivência e de transcendência, que estão intimamente ligados. Vai além de comportamento orientado pelo cérebro. Existe algo mais: a mente, que tem intrigado os filósofos desde a antiguidade, e a consciência, igualmente intrigante.

Onde se situam mente e consciência? No cérebro, que vem sendo tão bem estudado pelos reurologistas? Ou no que se costuma chamar inteligência, hoje bem estudada, inclusive no âmbito de uma disciplina que curiosamente se denomina inteligência artificial? E o que é inteligência? 6 As teorias vão surgindo, vão sendo aceitas ou recusadas, algumas marginalizadas e outras refutadas. Algumas idéias, que são aceitas por se desviarem pouco das anteriores, se tornam as novas explicações e encontram seu espaço nas universidades. 7 Outras idéias se desviam dos chamados paradigmas e criam novos paradigmas. 8 As teorizações sobre a evolução do cocnhecimento em geral se limitam a apenas alguns dos fatores que participam da dinâmica do conhecimento.

Uma categoria fundamental para a análise do comportamento humano é o poder, entendido no sentido amplo da organização sobre a qual se fundam famílias, sociedade e nações. As sociedades humanas modernas são grupos de indivíduos que se comportam em conformidade com normas e valores estabelecidos ao longo da história, resultado de tradições e eventos.

III. Uma Proposta Educacional
Por meio de sistemas educacionais, as sociedades transmitem e inculcam valores que servem de apoio às normas vigentes e aos estilos de comportamento, sobre os quais se apóia a estrutura de poder. Embora para muitos possa parecer um paradoxo, nesses mesmos sistemas educacionais estão embutidos os instrumentos intelectuais que permitem a crítica e a contestação do poder, eventualmente a sua modificação. Juntamente com a transmissão de valores, um sistema educacional tem como meta o desenvolvimento da capacidade de crítica e de contestação.9

Há modelos educacionais nos quais não se desenvolvem a capacidade de crítica e de contestação. São baseados na obediência.10 Mas o que se nota é que mesmo na transmissão pura e simples de valores, os sistemas educacionais muitas vezes falham. Sempre ficamos chocados quando vemos uma pessoa com um bom nível educacional comportando-se de maneira criticável, algumas vezes até abominável. Por que a educação muitas vezes não influi no seu comportamento? Paradoxalmente, o conhecimento é muitas vezes utilizado para um comportamento ainda mais criticável.11

Uma discussão sobre valores não pode escapar de umareflexão sobre a relação meios-fins. E uma discussão sobre educação tampouco pode escapar dessa relação, que se traduz em afirmações sobre a importância da educação. São valores associados à ação educativa. Espera-se o efeito da ação educativa no comportamento dos indivíduos. O currículo, que é aestratégia da ação educativa, tem como finalidade maior o comportamento dos indivíduos que passam pelo processo. Como o currículo é baseado em cocnhecimento, em saberes e fazeres, somos levados a uma questão maior: como se relacionam conhecimento e comportamento?

Obediência e Ética
Valores e obediência muitas vezes se confundem com conhecimento e comportamento. A obediência é muitas vezes resultado de temor de represálias pela autoridade legítima. Poder é muitas vezes identificado associado à obediência. Desde o temor de punição eterna, num cenário místico, até o temor de punições físicas, como suplício, mutilação e morte, materiais, como multas e confiscos, e morais, como cesura, confinamento e exclusão.

Mas a ameaça de represálias gralmente não está no discurso que respalda o poder. A obediência se obtém de maneira mais sutil, sem recurso às ameaças. Muitas vezes se dá por meio de recompensas, tais como prêmios, distinções e cooptação nos círculos de poder.12 Mas sobretudo graças à açeitação de um sistema de valores.

No sistema de valores estão incorporadas as atitudes com relação ao outro, que se estendem a grupos de outros identificados por características étnicas, culturais e religiosas. A partir daí se constroem os fundamentalismos, comuns nas sociedades, com os mais variados graus de intensidade.

A percepção de uma ameaça no outro é o ponto de partida para a intolerância do diferente, e a partir daí se parte para a defesa preventiva, que leva inevitavelmente ao ataque.

Uma outra forma de obediência que resulta de um sistema de valores é assumir como normal a prática de consumismo irresponsável, ganância desmedida e corrupção. São os ingredientes sobre os quais repousa o abuso e posteriormente a  agressão ambiental. Muitas vezes nos deparamos com indivíduos que tiveram educação esmerada e adquiriram um bom nível de conhecimento, mas que têm um comportamento agressivo com relação ao ambiente.

Devemos subordinar o sistema de valores a uma ética maior, uma ética que cruze culturas e que coloque prioridade na sustentação do triângulo da vida. Uma proposta é a ética da diversidade: 1) Respeito pelo outro, com todas as suas diferenças; 2) Solidariedade com o outro nasatisfação das necessidades de sobrevivência e transcendência; 3) Cooperação com o outro na preservação do patrimônio natural e cultural comum. Essa é uma ética que conduz à paz interior, à paz social, à paz ambiental e consequentemente, à paz militar. Atingir essa paz total é o objetivo maior da educação. Como organizar os sistemas educacionais em função desse objetivo maior?

Sobre o Currículo
Como estratégia da ação educativa global, proponho um currículo dinâmico, que foge radicalmente das propostas conteúdistas que dominam o currículo atual. Uma profunda reconceituação de currículo tem sido rejeitada por educadores, em geral. Mas o que vem a ser currículo? É muito importante que se reconheça que uma aula ou prática educativa é um processo. A esse processo chamamos ação educativa, que como toda ação, resulta de uma estratégia. Para o desempenho da ação educativa o professor vai munido de uma estratégia. Daí a definição que tenho adotado: currículo é a estratégia para a ação educativa

O ponto crítico é a passagem de um modelo de currículo cartesiano, estruturado previamente à prática educativa, a um currículo dinâmico, que reflete o momento socio-cultural e a prática educativa nele inserido. O currículo dinâmico é contextualizado no sentido amplo. 

O currículo cartesiano, tradicional, é baseado nos componentes objetivos, conteúdos e métodos. Obedece a definições obsoletas de objetivos do que era a sociedade — objetivos conservadores. Ensina conteúdos que num determinado momento histórico tiveram sua importância, mas que agora são ancorados em argumentos insustentáveis. 

E assim eles são transmitidos com métodos definidos a priori, sem conhecer os alunos e baseados numa estratificação destes em faixas etárias e "níveis de desenvolvimento intelectual" estabelecidos numa situação de laboratório. Tais objetivos, conteúdos e métodos não reconhecem as experiências e as expectativas de cada indivíduo, que resultam de sua história individual e coletiva. Sintetizando: são conclusões em geral inúteis, transmitidos com uma metodologia falsificada e falsificadora.
O currículo dinâmico parte do reconhecimento que nas sociedades modernas as experiências e interesses dos indivíduos são distintas e, portanto, as classes são heterogêneas, tendo alunos de interesses variados e detentores de uma enorme gama de conhecimentos prévios. Todos esses alunos têm potencial criativo, porém orientados em direções imprevisíveis e com as motivações mais variadas. 
O currículo, isto é, a estratégia da ação educativa, depende de facilitar a troca de informações, conhecimentos e habilidades entre alunos e professor/alunos, mediante uma socialização de esforços em direção a uma tarefa comum. Essa tarefa comum pode ser um projeto, uma discussão, uma reflexão e inúmeras outras modalidades de ação comum, em que cada indivíduo contribui com o que sabe, com o que tem, com o que pode, levando ao máximo o seu empenho na concretização do objetivo comum. 
Resumindo: o currículo dinâmico é uma estratégia de ação comum e repousa sobre três etapas que se desenvolvem simultaneamente:
a) motivação, resultado de condições emocionais e da interface passado/futuro;
b) elaboração de novo conhecimento, mediante a troca/construção/reconstrução de conhecimentos;
c) socialização, por meio da realização de tarefas comuns.
Socialização.  Esse conceito de currículo serviu de fundamento para um curso de Mestrado que coordenei, a partir de 1975, na Universidade Estadual de Campinas, em convênio com o Ministério de Educação e com a Organização dos Estados Americanos, destinado preparar liderança para inovações no Ensino de Ciências. 13
O curso era focalizado na problemática da paz no sentido pluridimensional discutido neste trabalho. Essa foi minha primeira organização das idéias expostas neste trabalho como uma efetiva proposta curricular. Foi a oportunidade de se investigar a possibilidade de uma prática educacional baseada na transdisciplinaridade.

Outras maneiras de propor a transdisciplinaridade vêm surgindo de muitas áreas do conhecimento. A visão holística, a complexidade ou pensamento complexo, as teorias da consciência, as ciências da mente, a inteligência artificial e inúmeras outras propostas transdisciplinares vêm sendo elaboradas e se tornando conhecidas.

O pensamento complexo tem sido particularmente destacado. Humberto Mariotti deixa bem claro o que se pretende com o pensamento complexo: “Referindo a algo que pode atenuar um modo de viver segundo o qual com enorme freqüência a palavra é separada do real, a justiça se preocupa menos com o sofrimento dos homens do que com a letra da lei, e esta busca verdades que pouco ou nada têm a ver com o cotidiano."14 E propõe cinco saberes que caracterizam o pensamento complexo e que constituem a essência de uma outra maneira de estar no mundo:
a) saber  ver;
b) saber  esperar;
c) saber conversar; d
) saber amar;
e) saber abraçar.

Esses saberes implicam comportamentos. O abraço se inicia a partir da mão estendida, que é o ponto de partida para o processo de busca da espiritualidade por meio do encontro com o outro.
 Nesses comportamentos está implícito um sistema de valores. Vivenciar esse sistema de valores no cotidiano é o código de conduta que pode redimir o ser humano. Esse vivenciar implica, muitas vezes, desobediência a ordens e normas de conduta. Alguns se sentem encorajados a essa desobediência numa ação de grupo. São transgressões que, mesmo sujeitas a repressão, deflagram os grandes movimentos sociais.

Outros, mesmo sem estar amparados por alguma forma de poder e, às vezes, até contrariando a autoridade, têm a coragem de agir só, fazendo valer o maior dom de ser humano, que é o exercício de sua livre vontade. Cumprir ordens, em conflito com a vontade, não é suficiente como código de conduta. A conduta que pode conduzir o ser humano à redenção resulta de se atingir o estado de consciência, quando conhecimento e comportamento estão solidários.
                       
(Este texto corresponde a palestra feita por ocasião do 5° Congresso da Escola Particular Gaúcha, patrocinado pelo SINEPE/RS em Porto Alegre, de 19 a 21 de julho de 2000.)

Notas

Economia do conhecimento” e “riqueza do saber” tornaram-se clichês.
1.No seu excelente livro, já clássico, Humberto Maturana e Francisco Varela: A Árvore do Conhecimento. As bases biológicas do entendimento humano, Editorial Psy II, Campinas, 1995, introduzem o conceito de autopoiesis para explicar como um organismo se mantém vivo.   
2. A espécie humana é a única a praticar suicídio. Há uma forma de suicídio de células cancerosas e mesmo a prática individual do suicídio em algumas espécies, mas obedecendo a mecanismos fisiológicos. Suicídio sem o objetivo maior de dar continuidade à espécie é conhecido somente na nossa espécie.
3.Ver Ubiratan D’Ambrosio: A Era da Consciência, Editora Fundação Peirópolis, São Paulo, 1997.
4. Particularmente prejudicial para a evolução da humanidade tem sido a maneira como o estabelecimento, o poder, expropriou as religiões derivadas do judaísmo e a ciência que delas resultou e criou mecanismos para desencorajar o surgimento de novas idéias. A academia, utilizando mecanismos brutais de marginalização e exclusão, tais como recusa a emprego, impecilho à publicação, bloqueio a facilidades de pesquisa, difusão de rumores desabonadores e outras tantas estratégias para desencorajar o novo pensar. Há inúmeros exemplos desse tipo de ação. Ver o estudo de Brian Martin: Strategies for Dissenting Scientists, Journal of Scientific Exploration, vol. 12, n°4, 1998; pp.605-616 e a bibliografia.  
5. Ubiratan D’Ambrosio: Transdisciplinaridade, Editora Palas Athena, São Paulo, 1997.
6. Cérebro, mente, pensamento, inteligência, consciência são alguns dos termos usados para se escapar do dualismo corpo/mente. Ver o livro do neurofisiologista William H. Calvin: How Brains Think. Evolving Intelligence, Then and Now, Basic Books, New York, 1996.
7. Essa é, em essência, a explicação da evolução do conhecimento proposta por Karl Popper.
8. Essa é uma outra explicação sobre a evolução do conhecimento, que Thomas Kuhn chamou revolução científica.
9. Ver  Ubiratan D’Ambrosio: Educação para uma Sociedade em Transição, Papirus Editora, Campinas, 1999.
10. Entendo obediência no comportamento e no conhecimento. Voltarei ao tema mais adiante.
11. Basta atentar para o fato que um dos crimes mais execráveis, que é o seqüestro para retirada de órgãos, só é possível com a participação de médicos e engenheiros com formação especializada.
12. Saborear migalhas dá a sensação de se estar participando do banquete!
13. Ver Ubiratan D’Ambrosio, organizador: Ensino de Ciências e Matemática na América Latina, UNICAMP/Papirus Editora, Campinas, 1988.
14. Humberto Mariotti: As Paixões do Ego. Complexidade, Política e Solidariedade, Editora Palas Athena, São Paulo, 2000; p.324.
(2003)

* UBIRATAN D'AMBROSIO é matemático nascido no Brasil. Professor Emérito da UNICAMP, São Paulo (Matemática). Consultor da UNESCO e da Organização dos Estados Americanos (OEA). Professor visitante da Universidade Regional de Blumenau. Professor de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, além de outras universidades. Membro do Conselho da Pugwash Conferences on Science and World Affairs. Publicou, entre outros livros: Educação para uma Sociedade em Transição (Campinas, Papirus), Etnomatemática: Elo Entre as Tradições e a Modernidade (Belo Horizonte, Autêntica, 2001) e Etnomatematica (Prefazione di Bruno D’Amore), Pitagora Editrice, Bolonha, 2002.
E-mail — ubi@usp.br

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